A Força de Iemanjá e o Reino das Águas

A Força de Iemanjá e o Reino das Águas
Hoje, logo ao amanhecer, aproveitei para fazer uma caminhada pela praia. Segui até a imagem de Iemanjá que, finalmente, conseguimos colocar na areia, próxima ao Clube Ilha Porchat, aqui em São Vicente.
Neste dia primeiro de fevereiro, ao contemplar o mar e a imagem da Mãe das Águas, lembrei que, em muitos lugares, este período é dedicado às celebrações em honra a Iemanjá.
Foi nesse clima de reflexão e gratidão que me motivei a escrever este pequeno texto.
Iemanjá é conhecida e reverenciada como a grande mãe, a mãe de todos os Orixás. Sua presença simboliza o acolhimento, o cuidado, a proteção e a própria origem da vida. No Brasil, sua devoção se manifesta de diferentes formas, conforme a região, respeitando datas e tradições próprias. Na Bahia, especialmente em Salvador, Iemanjá é celebrada no dia 02 de fevereiro, com grandes homenagens, flores e oferendas lançadas ao mar. No Rio de Janeiro, seu culto acontece tradicionalmente no dia 31 de dezembro, quando milhares de pessoas vestidas de branco se voltam para o oceano em busca de proteção e de um novo ciclo de paz. Já em São Paulo, as homenagens costumam ocorrer próximas ao dia 08 de dezembro, com a tradicional Festa de Iemanjá na Praia Grande.
Aproveitar o início do mês de fevereiro para falar sobre Iemanjá é também um convite à reflexão sobre o papel do feminino, da maternidade e das emoções em nossa vida. Iemanjá representa a força das águas, que geram, sustentam, limpam e transformam.
Segundo mitos antigos registrados por estudiosos como Arthur Ramos, a história de Iemanjá começa com a união de Obatalá, o Céu, com Odudua, a Terra. Dessa união nascem Aganju, que representa a Terra firme, e Iemanjá, cujo nome pode ser traduzido como “mãe cujos filhos são peixes”, simbolizando a Água. Assim como em muitas mitologias antigas, a terra e a água se unem, mostrando que a vida nasce da interação entre esses elementos.
Iemanjá se casa com seu irmão Aganju e dessa união nasce Orungã. O mito segue por caminhos simbólicos e profundos, trazendo Orungã como uma figura que representa conflitos universais da condição humana. Em uma narrativa marcada por dor e transformação, Iemanjá morre, e de seu corpo surgem rios, lagos e diversos Orixás. De seus seios brotam águas que se unem formando um grande lago, e de seu ventre nascem divindades ligadas às forças da natureza, como Xangô, Ogum, Oxum, Oyá, Oxóssi, Omolu, entre muitos outros. Esse mito nos ensina que, mesmo da dor, pode nascer a vida, a diversidade e o equilíbrio do mundo.
No Brasil, Iemanjá foi sincretizada com diversas representações do catolicismo, como Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora de Candeias e a Virgem Maria. Essa associação mostra como a fé do povo brasileiro soube unir diferentes tradições, criando uma espiritualidade rica e acolhedora.
Iemanjá também recebe muitos nomes: sereia do mar, rainha do mar, princesa do mar, Janaína, Dandalunda, Inaé, Maria, Dona Iemanjá, entre outros. Cada nome reflete uma região, uma cultura e uma forma de sentir essa divindade, mas sua origem permanece africana. A Iemanjá brasileira é resultado da mistura de elementos africanos, europeus e indígenas, o que reforça sua presença forte e plural em nossa cultura.
Casada com Oxalá em muitas tradições, Iemanjá é o arquétipo da maternidade. É a mãe que acolhe, orienta, corrige e ama. Em algumas representações, surge como sereia, metade mulher e metade peixe, lembrando as Iaras e as entidades aquáticas presentes nos candomblés de caboclo. Entre seus filhos, destacam-se Ogum, o orixá do ferro e da guerra, filho mais velho e Exu, que em algumas narrativas é considerado seu filho mais novo.
No Núcleo Mata Verde, Iemanjá é a regente do quinto reino, o Reino das Águas. Esse é o reino onde predominam as energias femininas e todas as divindades e entidades femininas da Umbanda possuem alguma ligação: caboclas, pretas-velhas, baianas, ciganas, crianças e pombas giras. Todas atuam, de alguma forma, sob a vibração desse reino.
Esse reino carrega uma força primordial essencial à vida e ao equilíbrio emocional, chamada de Y Pyatã. Sua cor é o azul claro e, no corpo humano, está ligada aos líquidos: sangue, linfa, suor, lágrimas, urina, rins, bexiga e ao aparelho reprodutor feminino, incluindo gestação e fecundação. Assim, Iemanjá nos ensina que cuidar das emoções é cuidar da vida. Honrar Iemanjá é aprender a acolher, sentir, amar e respeitar os ciclos naturais que nos sustentam.
Odoyá!
Salve a Grande Mãe!
São Vicente, 01 de fevereiro de 2026
Pai Manoel Lopes


