Entre Oferendas e Gestos

Entre Oferendas e Gestos
O nome Nnanda Luzanga não surgiu como um som isolado, mas como um sopro antigo que se manifestava no próprio ambiente do sonho. Eu estava dentro de um terreiro, um espaço que não parecia fechado por paredes, mas sustentado por uma atmosfera de ordem, silêncio e presença. Tudo era branco. Não um branco vazio, mas um branco vivo, ritual, que acolhia.
À minha frente estava a mãe de santo. Vestia-se de branco com naturalidade, como se aquela cor não fosse roupa, mas extensão do seu próprio estado. Seu sorriso era sereno, firme e paciente, o sorriso de quem ensina sem pressa, de quem sabe que o aprendizado acontece no tempo certo. Não havia urgência nem cobrança. Apenas presença.
Ela me conduzia com gestos simples, mas cheios de significado. Ao redor de nós, dispostas com cuidado, havia várias oferendas. Não eram grandes nem exuberantes. A maioria era feita de sementes, pequenas, discretas, carregadas de promessa. Havia também pedaços de frutas organizados em cumbucas de cerâmica branca, simples e bonitas, como se cada uma guardasse um segredo silencioso. Nada parecia excessivo. Tudo parecia necessário.
Eu caminhava em volta dessas oferendas, dando voltas lentas, quase circulares, como se o próprio chão ensinasse o ritmo. A mãe de santo me observava com atenção afetuosa e então começava a ensinar os movimentos das mãos. Eu juntava as mãos, levava-as para um lado e depois para o outro, num gesto que não era apenas corporal, mas interno, uma saudação que parecia alinhar pensamento, emoção e intenção.
Enquanto eu repetia os gestos, algo se organizava dentro de mim. Não era uma incorporação nem uma visão intensa. Era aprendizado. Um aprender com o corpo, com o gesto, com o silêncio entre um movimento e outro. As voltas ao redor das oferendas não eram simples caminhadas. Eram percursos. Caminhos que se refaziam, como se cada volta fosse uma camada a mais de compreensão.
A mãe de santo sorria. Seu olhar era firme e gentil ao mesmo tempo. Em certo momento, ela me encara diretamente, como quem reconhece que algo foi compreendido, ainda que não totalmente explicado. Então, com a naturalidade de quem diz algo óbvio, ela afirma que eu deveria entrar em contato com Nnanda Luzanga, ou um nome muito próximo disso.
O nome ecoa, mas não se fixa completamente. Ele não se impõe. Ele passa, como um vento que toca e segue. Não vem acompanhado de ordens nem de promessas. Surge como indicação de caminho, como quem aponta uma direção, não um destino.
Nnanda Luzanga, ali, não parecia uma entidade a ser invocada, mas um princípio a ser compreendido. Algo ligado ao movimento que eu acabara de aprender, o caminhar em volta, o ir e vir das mãos, a circulação ao redor das sementes. Um nome que falava de deslocamento, de continuidade, de uma força que anda, não apressada, mas constante.
O sonho não termina com um fechamento ritual. Ele se interrompe, como se o ensinamento tivesse sido suficiente por enquanto, como se o que foi mostrado não pedisse ação imediata, mas maturação.
Fica a sensação de ter tocado um saber antigo, transmitido sem discursos longos, apenas com gestos, sementes e silêncio. E fica também a impressão de que Nnanda Luzanga não é algo a ser possuído, mas algo a ser reconhecido ao longo do caminho, quando o caminhar estiver pronto para continuar.
Saravá!
São Vicente, 08 de janeiro de 2026
Manoel Lopes
Obs.: Escrevi acima alguns detalhes de um sonho que tive esta noite. Desconheço totalmente se existe a palavra Nnanda Luzanga; pode, inclusive, ter sido outra palavra, mas achei a sonoridade bastante interessante e gostei dela, independentemente de possuir algum significado. Trata-se simplesmente de um texto que escrevi para não esquecer esses momentos muito agradáveis vivenciados no sonho.

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