Gira dos Guardiões e o Entendimento da Força Exu

Gira dos Guardiões e o Entendimento da Força Exu

Ontem realizamos a Gira dos Guardiões no Núcleo Mata Verde. Este trabalho ocorre sempre na última quarta-feira do mês e é uma reunião fechada, com a participação restrita aos filhos da casa e seus familiares. Trata-se de um trabalho voltado ao descarrego, à proteção e ao equilíbrio espiritual dos membros do Núcleo Mata Verde.

Hoje acordei motivado a escrever este texto, com o objetivo de explicar como compreendemos a força Exu, o Orixá Exu, enquanto força espiritual presente na Natureza.

Na Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados, adotamos um entendimento específico, desenvolvido e aplicado internamente, que faz uma distinção clara entre os Guardiões — espíritos que incorporam nos médiuns — e a força espiritual Orixá, compreendida como Divindade. Trata-se de um tema complexo, mas procurarei explicá-lo da forma mais simples e acessível possível.

A força espiritual chamada Exu é uma das mais antigas, profundas e, ao mesmo tempo, uma das mais mal compreendidas dentro das tradições afrodescendentes. No Núcleo Mata Verde, trabalhamos Exu também como Orixá, ou seja, como uma força inteligente da Natureza, uma Divindade que atua diretamente nos processos naturais, espirituais e humanos.

Entendemos que, assim como todos os Orixás, Exu não é uma figura humana no sentido comum. Ele é um princípio ativo da Criação, presente em toda a vida.

Nas religiões de matriz africana, os Orixás representam forças da Natureza em ação. Eles não estão separados do mundo material: manifestam-se no vento, na água, na terra, no fogo, nas florestas e nos ciclos da vida, do nascimento à morte. Exu, dentro desse entendimento, é a força que move, conecta, transporta, comunica e transforma.

Nada acontece sem movimento, e todo movimento passa por Exu.

Exu como força das passagens

Exu atua, de forma especial, nos lugares de passagem, nos pontos de transição entre um estado e outro. Por isso, é associado às encruzilhadas, às entradas e saídas, aos limiares.

Onde há mudança, Exu está presente.

Esses pontos de atuação incluem, por exemplo:

  • a porta de uma casa (do lado de fora e do lado de dentro);
  • a entrada de uma mata;
  • a beira da praia, onde a areia encontra o mar;
  • a entrada dos cemitérios;
  • as estradas e os caminhos;
  • as entradas dos terreiros, onde se encontra a tronqueira.

A tronqueira não é um simples detalhe ritual. Ela representa, exatamente, esse ponto de passagem entre o fora e o dentro, entre o mundo espiritual e o mundo material. É ali que se firma o respeito à força que guarda, organiza e regula o trânsito entre os planos.

Exu atua, portanto, como um Guardião.

Ele atua no entre. Não é o ponto fixo, mas o movimento entre dois pontos. Não é o início nem o fim, mas o processo de passagem.

Exu como força de ligação entre os mundos

Em diversas tradições afro, especialmente nas de origem iorubá, Exu é conhecido como o mensageiro entre os mundos. Ele realiza a ligação entre:

  • Orum e Aiyê (mundo espiritual e mundo material);
  • espírito e matéria;
  • o visível e o invisível;
  • os Orixás e os seres humanos.

Sem Exu, não há comunicação. Por isso, em muitas casas tradicionais, Exu é sempre cultuado antes de qualquer outro Orixá. Não por hierarquia de poder, mas por função cósmica: é ele quem abre os caminhos para que as demais forças possam atuar.

O equilíbrio e o desequilíbrio

Uma das características mais importantes de Exu é sua atuação entre polos opostos. Exu não é, em sua essência, bom ou mau. Ele é justo à dinâmica da vida.

Dependendo da necessidade, Exu pode atuar como equilibrador ou como desequilibrador, pois muitas vezes o desequilíbrio é necessário para que um novo equilíbrio seja alcançado.

Ele está presente entre:

  • amor e ódio;
  • saúde e doença;
  • vida e morte;
  • riqueza e pobreza;
  • ordem e caos.

Sempre que o ser humano transita de um estado para outro, Exu está ali. Ele não decide sozinho, mas opera o mecanismo da passagem. Cria as condições para que algo aconteça ou não aconteça, de acordo com as leis naturais, espirituais e éticas.

Exu na natureza e na biologia

Exu não atua apenas nos rituais ou nos espaços religiosos. Na Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados, estudamos que essa força espiritual está presente em toda a Natureza.

Um exemplo claro é o processo da reprodução humana. Quando o espermatozoide encontra o óvulo e consegue penetrá-lo, ocorre um momento crítico de passagem: duas células distintas tornam-se o início de uma nova vida em potencial. Nesse instante, atua a força de Exu.

O óvulo emite uma explosão bioquímica, visível em laboratório, conhecida como “centelha de zinco”, que sinaliza o início do processo vital. É a força Exu que determina se haverá fecundação ou não, se o processo seguirá adiante ou será interrompido.

Isso não significa uma ação consciente nos moldes humanos, mas a atuação de um princípio organizador do movimento e da transformação, presente em toda a biologia.

Exu, nesse sentido, governa os inícios da vida.

Da mesma forma, ele atua:

  • no nascimento;
  • no crescimento;
  • na maturidade;
  • no envelhecimento;
  • na morte.

Todos esses são processos de passagem.

Exu nas diferentes tradições afro

Nas tradições africanas originárias, especialmente na cultura iorubá, Exu é conhecido como Èsù, Elegbá ou Legbá, conforme a região. Em todas elas, é o guardião dos caminhos, o senhor da comunicação e o organizador do movimento.

No Candomblé, Exu é um Orixá primordial, indispensável à ordem do culto.

Na Umbanda, além do Orixá Exu, existem as entidades chamadas Exus, que são espíritos trabalhadores, geralmente ligados à chamada linha da esquerda. Eles atuam diretamente na proteção, na limpeza espiritual, no descarrego e no equilíbrio das energias humanas.

Embora não sejam o Orixá em si, essas entidades atuam sob a vibração e o princípio de Exu, manifestando essa força de forma mais próxima e acessível ao cotidiano humano. São esses espíritos que trabalham diretamente na vibração do Orixá Exu, por serem os mais preparados e conhecedores dessa força. Cabe a eles manipular essa energia divina com sabedoria, responsabilidade e maestria.

Essa distinção gerou muitas confusões ao longo do tempo, especialmente em razão de influências externas e preconceitos religiosos. No entanto, em todas as tradições sérias, Exu não é o mal nem um demônio; é a força que lida com a realidade como ela é, sem romantizações.

Exu e a Criação

Dentro do entendimento espiritual adotado no Núcleo Mata Verde, Exu está presente em todos os Sete Reinos da Criação, pois não existe Reino sem passagem, sem movimento ou sem comunicação.

Entretanto, sua primeira grande manifestação ocorre no momento da Criação Universal, na transição entre o Reino das Almas e o Reino do Fogo. Esse instante representa a passagem do mundo espiritual para o mundo material, do potencial para a ação, do invisível para o visível.

Exu é exatamente essa ponte. Ele liga Orum e Aiyê, espírito e corpo, ideia e forma, informação e energia.

Sem Exu, a criação não se concretiza. Ele é o princípio que permite que algo saia do campo espiritual e se manifeste no mundo material.

Considerações finais

Exu é uma força profundamente ligada à vida real. Ele não atua apenas no sagrado distante, mas no cotidiano, nas escolhas, nas mudanças, nos encontros e desencontros.

Exu ensina que toda decisão gera consequências, que toda passagem exige responsabilidade e que o equilíbrio não é estático, mas dinâmico.

Compreender Exu é compreender o movimento da própria existência. É aceitar que a vida acontece entre polos, entre começos e fins, e que é nesse “entre” que a força de Exu atua, organizando, testando, abrindo ou fechando caminhos conforme a Lei Natural e Espiritual.

Respeitar Exu é respeitar a dinâmica da vida.

Laroyê Exu.

Salve Exu das Sete Encruzilhadas

São Vicente, 29 de janeiro de 2026

Pai Manoel Lopes

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