Maturidade Espiritual e o Caminho da Mediunidade

Maturidade Espiritual e o Caminho da Mediunidade

Hoje, por acaso, me deparei com uma publicação no Instagram, um daqueles cortes curtos que aparecem enquanto rolamos a tela. Nele, uma psicóloga dizia algo que me chamou muito a atenção e que, imediatamente, se conectou com reflexões que carrego há muitos anos dentro de mim. Ela afirmava que a maturidade não é dizer “eu não quero” para fingir virtude. A maturidade, segundo ela, é olhar para o desejo, admitir com honestidade: “eu quero, sim”, mas decidir racionalmente: “eu não posso”. Somos carne e osso, o desejo existe, faz parte da condição humana. O segredo não está em reprimir sentimentos, mas em assumir o controle das decisões para não adoecer.

Naquele momento, eu já estava sentado em frente ao notebook, me preparando para escrever um texto sobre a tradição dos Sete Reinos Sagrados. No entanto, aquelas palavras me fizeram mudar um pouco o rumo da escrita, pois me lembraram de muitos ensinamentos que procuro passar aos filhos de santo, principalmente quando estou tratando sobre mediunidade.

Sempre faço questão de lembrar aos médiuns, especialmente aos mais novos, que carinhosamente chamamos de Bojá Mirim, que a mediunidade é uma maravilha. Mediunidade é sensibilidade. O médium é, por natureza, uma pessoa mais sensível ao ambiente, às pessoas, às emoções e às influências espirituais. Essa sensibilidade não é um problema, muito pelo contrário, é um dom. Porém, como todo dom, ela exige cuidado, orientação e escolhas conscientes.

Quando começamos a desenvolver ou educar essa sensibilidade, precisamos aprender a fazer escolhas corretas. Desenvolver a mediunidade não é um caminho para satisfazer curiosidades, vaidades ou desejos pessoais. No meu ponto de vista, baseado na minha experiência de 51 anos na Umbanda e na mediunidade, esse desenvolvimento deve ter um objetivo muito claro: servir à espiritualidade, que deseja amparar, orientar e socorrer aqueles que necessitam.

Vejo como um grande erro quando alguém desenvolve a mediunidade e, ao mesmo tempo, se afasta de uma casa espiritual, de um terreiro, passando a frequentar constantemente baladas, barzinhos e ambientes onde a atmosfera espiritual é densa. Esses lugares, embora socialmente aceitos, muitas vezes não são adequados para quem está com a sensibilidade espiritual ampliada. Para mim, a mediunidade precisa estar associada a uma egrégora, ao ambiente do terreiro, ao trabalho espiritual contínuo. Caso contrário, em vez de ajudar no crescimento espiritual do médium, ela pode gerar dificuldades na vida material, mental, emocional e espiritual.

Dentro dos terreiros, observo muitas pessoas querendo desenvolver a mediunidade a qualquer custo. Mas poucas refletem sobre o que isso realmente significa. Desenvolver a mediunidade é aumentar a sensibilidade, e isso precisa vir acompanhado de responsabilidade, disciplina e, sim, de uma maior rigidez espiritual e moral. Não se trata de fanatismo ou repressão, mas de coerência. O médium precisa ter uma vida mais regrada e, com toda certeza, evitar certos ambientes que, para pessoas que não fazem uso da mediunidade, podem parecer completamente normais.

É comum alguns médiuns, tanto em desenvolvimento quanto mais antigos, me perguntarem se não podem beber nenhuma bebida alcoólica. Costumo responder com sinceridade e bom senso: deve-se evitar o máximo possível e ter muito cuidado com onde se vai e com quem se está bebendo. Se a pessoa ainda não tem controle e sente vontade de beber uma cerveja, pode beber uma. Costumo brincar dizendo: “uma pode”. E, de preferência, em família, em um ambiente equilibrado.

O mais importante é observar quando o compromisso com a espiritualidade passa a ser maior do que o desejo momentâneo de beber. Esse é um sinal de maturidade espiritual. Todos nós somos livres e temos o livre-arbítrio para fazer o que quisermos. No entanto, também sabemos que toda escolha gera consequências. Por isso, é fundamental compreender que podemos fazer tudo, mas nem tudo nos convém fazer.

Assim como disse a psicóloga naquele corte que vi por acaso, o amadurecimento não está em negar o desejo, mas em reconhecê-lo e decidir com consciência. Na mediunidade, isso se torna ainda mais importante, pois não lidamos apenas conosco, mas também com energias, com pessoas e com o sagrado. Escolher com responsabilidade é um ato de amor consigo mesmo, com o próximo e com a espiritualidade que nos acompanha.

Saravá Umbanda!

São Vicente, 04 de fevereiro de 2026

Pai Manoel Lopes

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