O Axé das Flores na Tradição dos Sete Reinos 

O Axé das Flores na Tradição dos Sete Reinos 

Neste final de ano, resolvemos seguir um caminho diferente daquele escolhido pela maioria das pessoas. Enquanto muitos desciam a Serra do Mar em direção às praias, eu e a Bete optamos pelo caminho contrário. Subimos a serra e seguimos rumo a São José dos Campos. A decisão foi simples e cheia de significado: passar a virada do ano ao lado do nosso filho, da nora e dos netos. 

São José dos Campos nos recebeu com tranquilidade. A cidade estava calma, silenciosa, com um clima sereno que contrastava com a agitação típica do período de fim de ano. E foi exatamente isso que procurávamos: paz, recolhimento e convivência familiar. Ao chegarmos, organizamos a casa e fomos abastecê-la com os produtos necessários para os dias seguintes. Em meio a essa rotina simples, Elisabete trouxe para casa um lindo girassol. 

Como não consigo perder minha antiga mania de escrever e refletir, ao observar o girassol, com sua beleza imponente e sua energia irradiando vida, fui levado a pensar sobre o uso das flores na Umbanda, especialmente dentro da tradição espiritual dos Sete Reinos Sagrados. A flor, aparentemente simples, carrega em si uma força profunda, silenciosa e primordial. 

As flores têm um papel fundamental em nossos rituais. Elas pertencem, assim como as ervas, folhas, raízes, sementes, árvores e plantas, ao Quinto Reino Sagrado: o Reino das Matas. Este reino possui uma força primordial que chamamos de Caá Pyatã, um axé extremamente importante para o equilíbrio da vida, do corpo e do espírito. Embora este reino tenha muitas características que merecem estudo aprofundado, hoje meu foco é falar especificamente sobre as flores e sua importância espiritual. 

Na tradição espiritual das Sete Forças Primordiais, cada um dos sete reinos possui uma vibração própria. Essa vibração não atua de forma isolada, mas modula e influencia as demais, criando um equilíbrio entre todas as forças. No caso do Reino das Matas, regido por Oxóssi, encontramos a origem das plantas, ervas e flores que servem não apenas a este reino, mas também aos demais reinos sagrados. Cada orixá regente possui suas ervas e suas flores específicas, utilizadas conforme a vibração necessária em cada trabalho espiritual. 

Aproveito este final de ano para me dirigir especialmente aos novos membros, compartilhando algumas informações importantes sobre as flores e sua relação com os orixás regentes de cada reino sagrado. Naturalmente, esse conhecimento é interno, baseado na tradição espiritual que seguimos, e pode apresentar diferenças em relação a outros cultos e religiões afroameríndias. Isso faz parte da riqueza e diversidade espiritual do nosso país. 

Lembro-me com carinho dos ensinamentos do Caboclo Mata Verde, que em muitas ocasiões utiliza apenas algumas plantas ou flores para equilibrar ambientes e pessoas em desequilíbrio. Tratamentos simples, porém, profundamente eficazes. Cansei de ver o Caboclo orientar casais a colocarem rosas brancas em casa, manterem a Espada-de-Ogum como proteção, tomarem banhos de ervas e rosas, realizarem lavagem de cabeça com rosas brancas ou utilizarem pétalas de rosas em rituais de harmonização. O uso das flores é vasto em nossos trabalhos, oferendas e orientações espirituais, incluindo trabalhos com Exus e Pombas-Giras, nos quais são comuns os cravos e rosas vermelhas. 

As flores representam vida, axé, beleza, renovação e a ligação entre o mundo material e o mundo espiritual. Na ritualística afro-brasileira, são utilizadas em oferendas, firmezas, banhos, ornamentações de congá e trabalhos espirituais diversos. Cada flor carrega uma vibração específica que se harmoniza com os atributos de cada orixá. 

Oxum, no Reino da Água Doce, está associada às rosas amarelas, rosas cor-de-rosa, lírios amarelos, margaridas amarelas e as rosas brancas, simbolizando amor, prosperidade e autoestima. Oxalá, no Reino da Humanidade, se conecta ao girassol, ao lírio branco, à rosa branca e ao copo-de-leite, representando fé, elevação espiritual e ligação com o divino. Iemanjá, no Reino das Águas Salgadas, recebe flores claras e perfumadas, como rosas brancas, lírios, orquídeas claras e jasmim, símbolos de maternidade e acolhimento. 

Oxóssi, no Reino das Matas, está ligado às flores do campo, orquídeas, bromélias, flores silvestres e rosas amarelas, refletindo fartura e sabedoria. Ogum, no Reino do Fogo, recebe cravos e rosas vermelhas, além de gladíolos, representando força, coragem e ação. Iansã, no Reino do Ar, vibra com rosas vermelhas e amarelas, hibiscos e flores alaranjadas, ligadas ao movimento e à transformação. Xangô, no Reino da Terra, relaciona-se com cravos vermelhos, flores em tons terrosos e rosas amarelas, símbolos de justiça e equilíbrio. Omulu e Obaluaiê, no Reino das Almas, utilizam flores simples, flores do campo e crisântemos, refletindo cura e renascimento. Nanã, ligada aos Reinos das Almas e da Água, associa-se às flores lilases, hortênsias e rosas claras, representando ancestralidade e tempo. Exu, presente em todos os reinos, recebe rosas e cravos vermelhos, símbolos de vitalidade e abertura de caminhos. 

Este texto não esgota o assunto, nem pretende fazê-lo. Meu objetivo é despertar a curiosidade dos novos integrantes do Núcleo Mata Verde para que estudem, pesquisem e aprofundem seus conhecimentos. Lembro que mantemos um curso EAD sobre “As Ervas e Banhos na Umbanda”, disponível em www.ead.mataverde.org, para aqueles que desejarem seguir nesse caminho de aprendizado. 

Que as flores, com sua simplicidade e força silenciosa, continuem nos ensinando sobre equilíbrio, respeito à natureza e espiritualidade verdadeira. 

Saravá! 

SJC, 29 de dezembro de 2025 

Manoel Lopes 

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