Filosofia Bantu e a Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados

Ao ler recentemente um resumo do livro Filosofia Bantu de Placide Tempels, senti algo muito interessante acontecer dentro de mim. Muitos conceitos apresentados pelo autor pareciam dialogar profundamente com ensinamentos que venho recebendo há décadas dentro da Umbanda, especialmente através da orientação espiritual do Caboclo Mata Verde.

Neste ano completo 51 anos de mediunato umbandista. Durante toda essa caminhada espiritual, sempre compreendi a Umbanda como uma religião profundamente ligada aos Orixás e, mais raramente, aos Inquices, além dos espíritos de Caboclos, Pretos Velhos, Baianos, Exus e tantas outras entidades que trabalham em benefício da humanidade. Porém, ao longo desses anos, o Caboclo Mata Verde foi gradualmente me apresentando uma visão mais ampla da espiritualidade, algo que inicialmente chamávamos de “Doutrina dos Sete Reinos Sagrados” e que hoje prefiro chamar de Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados.

Essa visão espiritual sempre me pareceu muito simples, lógica e profundamente conectada à natureza. Talvez justamente por isso faça tanto sentido. Ela oferece uma maneira de compreender praticamente todas as relações existentes dentro da Umbanda: os Orixás, os espíritos, as forças da natureza, as oferendas, o axé, as doenças, os desequilíbrios espirituais e até mesmo o próprio sentido da vida na Terra.

A ideia central é muito clara: vivemos no planeta Terra, portanto precisamos compreender o planeta em que vivemos. Precisamos observar sua formação, sua evolução e as forças que atuam em sua existência há bilhões de anos. Dentro da Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados, dividimos o processo de formação do planeta em sete grandes etapas vibratórias, chamadas de reinos:

Fogo, Terra, Ar, Água, Matas, Humanidade e Almas.

Cada um desses reinos representa uma fase da formação da Terra e também uma força espiritual atuante na natureza e na vida humana. Cada reino é regido por uma Divindade Primordial, um Orixá primordial que canaliza seu axé nos elementos pertencentes ao seu reino.

Essas divindades não são entendidas como seres humanos sobrenaturais sentados em algum lugar do universo. São forças cósmicas, inteligências da natureza, campos espirituais que atuam constantemente sobre toda a criação. O fogo existe, a água existe, o ar existe, as matas existem, a humanidade existe e o mundo espiritual também existe. Tudo isso forma um grande sistema vivo e interligado.

Nós fazemos parte da natureza. Não estamos separados dela.

E talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa visão espiritual. Quando nos afastamos do equilíbrio dessas forças naturais e espirituais, adoecemos. Muitas doenças não são apenas físicas; elas também podem representar desequilíbrios emocionais, energéticos e espirituais. Precisamos harmonizar novamente essas forças dentro de nós.

Foi exatamente nesse ponto que encontrei uma enorme aproximação com as ideias apresentadas por Placide Tempels sobre a religiosidade e a filosofia bantu.

Segundo Tempels, a base da filosofia bantu não está na ideia de um “ser” estático, parado e separado, como muitas vezes acontece na filosofia ocidental. Para os bantu, tudo no universo possui força vital. Existir é possuir energia. Deus, espíritos, ancestrais, seres humanos, animais, plantas e minerais fazem parte de uma imensa rede de forças interligadas.

Ao ler isso, imediatamente lembrei dos ensinamentos dos Sete Reinos Sagrados.

Na tradição que venho aprendendo ao longo desses anos, tudo possui vibração, tudo possui axé, tudo possui força espiritual. Uma pedra possui energia. Uma árvore possui energia. Um rio possui energia. O fogo possui energia. As ervas possuem energia. Os espíritos possuem energia. O ser humano também possui energia espiritual.

Nada está isolado.

Tempels também afirma que a vida depende da harmonia entre essas forças. Quando há equilíbrio, existe saúde, prosperidade e crescimento espiritual. Quando há desequilíbrio, surgem doenças, sofrimento, perturbações e enfraquecimento da força vital.

Mais uma vez encontrei uma profunda semelhança com aquilo que aprendemos na Umbanda e na Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados. Muitas vezes um passe, um banho de ervas, uma defumação, uma oração ou uma oferenda têm justamente o objetivo de reorganizar essas forças invisíveis que atuam sobre nossa vida.

Outro ponto que me chamou muita atenção foi a visão bantu de que o ser humano não existe sozinho. A pessoa existe em relação à família, aos ancestrais, à comunidade, à natureza e ao mundo espiritual. Isso também se harmoniza profundamente com a Umbanda. Somos parte de algo muito maior. Estamos ligados aos nossos ancestrais, aos espíritos protetores, às forças da natureza e aos Orixás.

A espiritualidade não está separada da vida material. Tudo está conectado.

Senti uma ligação muito forte com a religiosidade bantu ao entrar em contato com essas ideias. Não apenas por questões históricas da Umbanda, mas principalmente pela visão espiritual da natureza como um organismo vivo, dinâmico e sagrado.

Pretendo me aprofundar ainda mais nesse conhecimento, porque sinto que muitos fundamentos da Tradição Espiritual dos Sete Reinos Sagrados se harmonizam profundamente com a visão bantu da vida, da espiritualidade e da natureza.

Talvez existam raízes muito antigas ligando esses conhecimentos.

E talvez o mais importante seja perceber que diferentes povos, em diferentes épocas, chegaram a conclusões semelhantes: a vida é uma grande rede de forças interligadas, e somente através do equilíbrio entre elas podemos encontrar saúde, consciência, harmonia e evolução espiritual.

São Vicente, 19/05/2026

Manoel Lopes

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